Transtornos alimentares afetam cerca de 15 milhões de brasileiros e exigem atenção
Quando o ato de comer deixa de ser um prazer necessário e passa ser vista como algo que causa dor, culpa e sofrimento. Este é o drama vivido pelas pessoas que possuem distúrbios e transtornos alimentares: um contingente que soma cerca de 70 milhões em todo o mundo, sendo aproximadamente 15 milhões de pessoas no Brasil, na proporção de um caso a cada 20 pessoas. Essas são as estimativas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/FMUSP), com base no cruzamento de dados oficiais do Ministério da Saúde.
A literatura médica cita entre oito ou 12 transtornos do tipo, mas entre os mais comuns estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa, o transtorno da compulsão alimentar e o transtorno alimentar restritivo evitativo (TAR), que acontece muitas vezes na infância e pode acompanhar até a vida adulta. A anorexia se caracteriza pela visão distorcida do próprio corpo, na qual a pessoa se enxerga acima do peso mesmo estando muito magra, e por isso passa a restringir severamente o consumo de alimentos. Já na bulimia, o paciente tem episódios de compulsão, comendo em grandes quantidades, e em seguida toma medidas extremas para evitar o ganho de peso, como indução de vômitos, uso de laxantes ou exercícios exaustivos.
“Em geral, essas pessoas que desenvolvem transtornos alimentares têm uma forma transtornada de se relacionar com a comida ou com o controle excessivo ou com descontrole frente à alimentação, relacionado também com distorções da percepção da imagem corporal, baixa autoestima e insatisfação corporal”, afirma a psiquiatra e professora Ana Raquel Santiago, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit). Ela esclarece que esses distúrbios têm várias causas, podendo ser ambientais, sociais e genéticas. Isso passa inclusive pela forma como esse assunto é historicamente tratado dentro de cada família e, muitas vezes, por influência do que cada sociedade diz.
“A gente tem um componente que pode ser repetido dentro da família: um padrão genético e também comportamental em relação à forma como eu critico ou me relaciono com o meu corpo, e consequentemente à forma como eu lido com a minha alimentação. Isso pode ser desenvolvido desde a infância, tanto através da relação entre a família como também socialmente falando. A gente vive numa sociedade onde a gente tem uma cultura de dieta muito forte, um culto ao corpo. Nos tempos mais recentes, essa busca é pelo que é saudável. Muitos autores já têm feito uma certa crítica a esse boom e à busca pelo emagrecimento a qualquer custo, e isso pode deixar as pessoas transtornadas na sua alimentação e na sua relação com a sua imagem corporal”, analisa Raquel.
Em geral, o diagnóstico é de ordem médica, realizada por profissionais médicos treinados para lidar com transtornos alimentares, em áreas como psiquiatria ou endocrinologia, e que estejam capacitados para a identificação e avaliação destes transtornos e das respectivas situações de risco, com base em critérios diagnósticos e na experiência clínica. Os principais sinais de alerta para estes transtornos são mudanças nos padrões de comportamento alimentar e grandes perdas de peso em pouco tempo sem que a pessoa faça alguma dieta ou tenha alguma doença que justifique, além do ganho de peso excessivo em pouco espaço de tempo.
“Muitas vezes esse diagnóstico é o que a gente chama de transdiagnóstico: alguns pacientes não têm todos os critérios para preencher um diagnóstico de anorexia nervosa, mas tem alterações do comportamento alimentar que são alertas para o risco de desenvolver o transtorno alimentar completo. Então, a gente tem várias alterações de comportamento alimentar que são identificadas geralmente por médicos ou profissionais treinados”, afirma a professora, destacando ainda que tais transtornos podem aparecer em qualquer idade, mas acontecem, com mais frequência entre adolescentes, que vivenciam o conflito com as mudanças corporais comuns à fase de puberdade e com as cobranças sociais para perder peso e ser aceito pelas turmas. Há também casos de mulheres acima dos 45 anos que podem desenvolver compulsões alimentares decorrentes da menopausa.
Tratamento adequado
O tratamento das pessoas com transtornos alimentares é interdisciplinar e multiprofissional, devendo ser conduzido por uma equipe profissional treinada e focada no comportamento alimentar e na terapia nutricional. Ele também não indica a adoção de dietas restritivas, que cortem alimentos das refeições e podem desencadear outros transtornos alimentares, sobretudo em adolescentes.
“A gente trabalha com o equilíbrio da alimentação e com suporte psicológico, porque as pessoas têm essa insatisfação corporal, têm dificuldades extremas de óxido, muitas vezes associadas à depressão e ansiedade, e também com acompanhamento psiquiátrico. Alguns pacientes com doenças metabólicas precisam do acompanhamento também de médicos endocrinologistas ou clínicos gerais para poder dar suporte e acompanhar se a pessoa tiver uma obesidade ou uma grande deficiência de nutrientes”, detalha a professora da Unit, alertando que o acompanhamento de transtornos alimentares têm diversas peculiaridades, e que a condução por um profissional não treinado para a área pode piorar o quadro do paciente. “A gente tem uma máxima nessa área de transtornos alimentares que, às vezes, o não tratamento é melhor do que um tratamento mal conduzido”, define ela.
Mas tão importante quanto confiar o tratamento a uma equipe multidisciplinar treinada é educar e orientar os familiares, cônjuges e amigos de cada paciente que tenha transtorno alimentar, de forma a evitar que eles atrapalhem o tratamento com piadas, pré-julgamentos e comentários desnecessários. “Às pessoas com muita redução alimentar, não adianta dizer que só basta comer, ou que se ela não comer ela vai morrer, etc. Nem adanta fazer um terrorismo alimentar com as pesoas com com muita obesidade fazer um terrorismo alimentar, dizer que precisa parar de comer, que vai infartar, etc. Isso não ajuda em nada. A gente precisa orientar a todos que é preciso observar isso como um transtorno e ter, digamos assim, a empatia, de oferecer ajuda, né, de não questionar”, destacou Ana.
Da 93Notícias
